A Rainha Vermelha da própria cabeça
Num mundo simulado onde planejar mais fundo é um traço herdado, pensar mais não ajuda ninguém — e o único freio contra essa corrida não é o preço do pensamento, é a sua própria imprecisão.
No Matrix, cada bloco carrega dois números herdados que
decidem como ele planeja: quantos ticks à frente enxerga (horizonte) e
quanto desconta o futuro distante (desconto, a paciência). Os dois evoluem
livremente, com mutação, geração após geração. A pergunta que persegui
durante um bom tempo era ingênua o bastante para eu não desconfiar dela: vale
a pena planejar mais fundo?
Vantagem individual, ruína coletiva
A resposta óbvia — “claro, quem vê mais longe decide melhor” — é a metade errada de uma verdade incômoda. Num torneio de todos contra todos, o bloco que planeja mais fundo sempre vence o duelo contra quem planeja raso. Só que numa população inteira composta só de planejadores fundos, o resultado é pior do que numa composta só de planejadores rasos — sobra menos gente, no fim. É a assinatura de manual de uma corrida armamentista: correr mais rápido só ajuda enquanto o vizinho ainda corre devagar.
O horizonte que não produz nada
Achei que essa corrida ainda deixaria algum resíduo positivo — afinal, ver mais longe deveria, em algum grau, ajudar a colher melhor. Isolei o efeito rodando populações de um único tipo, sem nenhum rival de horizonte diferente para competir. Se o horizonte fundo fosse bom por si só, esse isolamento deveria mostrar isso.
Mostrou o oposto. Cada passo de planejamento além do segundo faz o bloco colher pior, não melhor: uma população só de planejadores com horizonte doze termina com vinte unidades a mais de comida abandonada no chão, intocada, contra uma população só de planejadores com horizonte um. O horizonte fundo não produz nada — ele não é usado para colher mais, é usado para competir pelo que já existe. Tudo o que ele compra, numa corrida armamentista de verdade, ele toma de um vizinho que planeja menos.
O freio que não é preço
Se pensar fundo é caro para o grupo e não rende nada sozinho, por que a corrida não continua para sempre, empurrando o horizonte até o teto que o código permite? Porque existe um freio — só que ele não é o preço do pensamento, nem um imposto, nem uma regra de desenho. É a própria imprecisão do plano, e quem decide quanto essa imprecisão pesa é a paciência do mundo.
Um plano longo é, no fundo, uma previsão — e previsões erram mais quanto mais longe vão. A paciência (o desconto) determina o peso que a cauda dessa previsão recebe na decisão final. Num mundo pouco paciente, essa cauda errada é descartada quase por completo, e planejar fundo demais sai barato: não ajuda, mas também não atrapalha muito. Num mundo muito paciente, a mesma cauda entra com quase metade do peso da decisão — e aí planejar fundo deixa de ser neutro e vira ativamente ruim: uma população que só planeja fundo demais sustenta cinco blocos e meio a menos do que uma que planeja um pouco menos fundo, e o estrago mais que triplica conforme o mundo fica mais paciente.
Disso sai o resultado que mais me surpreendeu, contra qualquer intuição que eu tivesse antes de medir: quanto mais paciente o mundo, mais raso deveria ser o horizonte ideal. Dar mais peso ao futuro distante não recompensa quem olha mais longe — pune quem confia demais numa previsão que, lá na ponta, já não vale a confiança que recebe.
Uma corrida que não precisa ser de graça
Fiquei com uma pergunta prática pendurada: dá para parar essa corrida sem simplesmente destruir a população? A primeira tentativa foi um imposto — cobrar de cada bloco pelo tanto que ele planeja fundo. Funcionou para alinhar o incentivo (a profundidade evoluída volta a cair para perto do ideal do grupo), mas a conta saiu cara demais: a arrecadação simplesmente desaparecia do mundo, e a população pagava por isso — quase um terço a menos de gente viva no equilíbrio novo.
A segunda tentativa trocou uma única linha: em vez de queimar a arrecadação, devolvê-la, dividida igualmente entre quem sobrevive a cada rodada. O incentivo se alinha do mesmo jeito — mas a população não só se recupera da perda, termina em 102% do que tinha antes de qualquer imposto existir. Alinhar a escolha individual ao bem do grupo não precisa custar nada, se o que se tira de um lado não some — só muda de mão.
O que sobra
Não me canso de notar como o resultado mais forte de tudo isso não é o óbvio (competir demais faz mal), e sim o torto: a coisa que deveria proteger contra o excesso — dar peso ao futuro, ter paciência — é exatamente o que faz o excesso doer mais. Toda corrida armamentista movida a previsão carrega, embutido, o próprio antídoto: em algum ponto a arma passa a mirar para trás. A pergunta que fica, para qualquer corrida parecida fora de uma simulação de 56 KB, é quem decide o quanto ela pesa a própria imprecisão antes de continuar correndo.
O código, as notas de pesquisa e os manifestos de filosofia estão no repositório do projeto.