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André Maia

Reflexões

A cidade não percebe quando alguém desaba

Um texto pessoal sobre o dia em que parei na calçada — e sobre descobrir que a cidade não diminui o ritmo quando alguém está prestes a desmoronar.

Hoje descobri uma curiosidade sobre as cidades.

Elas não diminuem o ritmo quando alguém está prestes a desmoronar.

O semáforo continua abrindo.

O ônibus continua passando.

O relógio da praça continua marcando as horas.

E as pessoas continuam andando como se o mundo inteiro tivesse combinado de chegar no horário.

Enquanto isso, um homem para na calçada.

Não porque esteja admirando a paisagem.

Mas porque, se der mais um passo, talvez as lágrimas cheguem antes dele.

É curioso como o choro adulto acontece.

Ele não explode.

Ele escapa.

Primeiro um silêncio.

Depois uma respiração curta.

Então uma lágrima que parece pedir licença.

Mais outra.

Quando percebemos, estamos negociando com a própria garganta para não soluçar no meio da rua.

Olhamos ao redor.

Ninguém percebe.

Ou talvez perceba e finja não perceber.

As cidades também aprenderam essa delicadeza estranha de continuar existindo.

Depois fui procurar ajuda.

Encontrei formulários.

Cadastros.

Protocolos.

Descobri que até o sofrimento precisa preencher etapas antes de ser atendido.

Voltei para casa carregando a sensação de que a burocracia é uma fila onde até as lágrimas precisam aguardar a própria senha.

Mais tarde, alguém me disse para não desistir dos projetos.

Sorri.

Não porque os projetos fossem o problema.

Mas porque, naquele momento, eu estava tentando não desistir de mim.

Ainda assim…

A cidade continuou funcionando.

Talvez seja justamente esse o seu maior talento.

Ela nunca para.

Mesmo quando, escondido entre um prédio público e uma calçada qualquer, alguém aprende que sobreviver também pode ser um trabalho de tempo integral.