A cidade não percebe quando alguém desaba
Um texto pessoal sobre o dia em que parei na calçada — e sobre descobrir que a cidade não diminui o ritmo quando alguém está prestes a desmoronar.
Hoje descobri uma curiosidade sobre as cidades.
Elas não diminuem o ritmo quando alguém está prestes a desmoronar.
O semáforo continua abrindo.
O ônibus continua passando.
O relógio da praça continua marcando as horas.
E as pessoas continuam andando como se o mundo inteiro tivesse combinado de chegar no horário.
Enquanto isso, um homem para na calçada.
Não porque esteja admirando a paisagem.
Mas porque, se der mais um passo, talvez as lágrimas cheguem antes dele.
É curioso como o choro adulto acontece.
Ele não explode.
Ele escapa.
Primeiro um silêncio.
Depois uma respiração curta.
Então uma lágrima que parece pedir licença.
Mais outra.
Quando percebemos, estamos negociando com a própria garganta para não soluçar no meio da rua.
Olhamos ao redor.
Ninguém percebe.
Ou talvez perceba e finja não perceber.
As cidades também aprenderam essa delicadeza estranha de continuar existindo.
Depois fui procurar ajuda.
Encontrei formulários.
Cadastros.
Protocolos.
Descobri que até o sofrimento precisa preencher etapas antes de ser atendido.
Voltei para casa carregando a sensação de que a burocracia é uma fila onde até as lágrimas precisam aguardar a própria senha.
Mais tarde, alguém me disse para não desistir dos projetos.
Sorri.
Não porque os projetos fossem o problema.
Mas porque, naquele momento, eu estava tentando não desistir de mim.
Ainda assim…
A cidade continuou funcionando.
Talvez seja justamente esse o seu maior talento.
Ela nunca para.
Mesmo quando, escondido entre um prédio público e uma calçada qualquer, alguém aprende que sobreviver também pode ser um trabalho de tempo integral.