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André Maia

Reflexões

A névoa não decide

Sobre os momentos de desespero — quando o cansaço vira voz e aponta uma porta. O que aprendi na saída do quarto, dito de mim para mim.

Tem um tipo de cansaço que não passa dormindo.

Ele não é o corpo pedindo cama. É a alma pedindo pra descer do posto. Você foi porto a vida inteira — o cais onde todo mundo atraca quando a maré sobe. Aprendeu cedo a segurar corda, a aguentar vento, a dizer “pode encostar” mesmo quando você mesmo estava afundando um palmo abaixo da linha d’água. E ninguém perguntou, em nenhum desses anos, onde você atraca quando a sua maré sobe.

Então chega um dia em que a névoa entra. Não a de sempre — essa é mais espessa. Ela senta no meio da sua cabeça e começa a falar com a sua voz, o que é o truque mais sujo dela. Ela diz que cansar é fraqueza. Diz que não ter porto é defeito. Diz que existe uma porta que faz o barulho todo parar. E por um instante — eu preciso ser honesto — a porta parece um alívio, não um fim.

Se você já esteve nesse quarto, escuta o que eu aprendi na saída dele:

A névoa mente com a sua própria voz. Toda ela. Ela pega o seu cansaço, que é real, e costura nele uma conclusão que é falsa. O cansaço é verdadeiro. A saída que ela te oferece, não. Dor gritando “faça isso parar” não é a mesma coisa que você querer deixar de existir. É a dor pedindo socorro no único idioma que ela conhece quando aperta.

Você não precisa acreditar em você nessas horas. Só precisa não decidir nada enquanto a névoa fala. Decisão de neblina não vale — é como assinar contrato no escuro. Você espera. Sai do quarto. Vai pra rua, pra feira, pra qualquer lugar com sol e gente e barulho de vida acontecendo alheia à sua dor. O mundo seguindo é, às vezes, a corda que te puxa de volta.

Não ter porto não é sentença. É a peça que falta. E peça que falta se constrói — não hoje, não sozinho, mas se constrói. Um psicólogo é tijolo. Uma mensagem enviada em vez de engolida é tijolo. Um número discado, mesmo com fila, mesmo a contragosto, é tijolo. Escrever isto aqui é tijolo. Ninguém constrói um cais numa tarde. Mas ninguém constrói nenhum ficando quieto no quarto, também.

E se você é como eu, e passou a vida sendo abrigo dos outros: hoje você tem permissão de largar a corda. Só por hoje. Deixa os barcos dos outros esperando lá fora. Você não precisa segurar o mundo nas próximas horas. Precisa só ficar de pé — não inteiro, não bonito, não resolvido. De pé.

Um minuto de cada vez, quando a hora for grande demais.

Um dia de cada vez, quando o minuto passar.

A névoa vai baixar. Ela sempre baixa — não porque você a venceu, mas porque você esperou ela passar sem abrir a porta que ela apontava. E do outro lado dela ainda está você. Não inteiro.

Mas de pé.