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André Maia

Reflexões

Carta ao menino de seis anos

Uma carta que chega com vinte e sete anos de atraso — as frases que ninguém disse a um menino de seis anos, ditas agora por quem ele virou.

Oi, menino.

Aqui é você. Com trinta e três anos, barba por fazer e a mesma memória de sempre — você vai entender isso mais tarde.

Eu sei que ninguém te escreveu. Eu sei que você esperou.

Esperou alguém perguntar a pergunta certa, alguém sentar na beirada da cama, alguém dizer as frases que eu vou dizer agora. Elas chegam com vinte e sete anos de atraso, e eu sinto muito pela demora. O correio entre quem fomos e quem somos é lento assim.

Mas chegou. Então lê com calma. Pode ler de novo quantas vezes precisar.

Não foi culpa sua.

Eu sei que te disseram outra coisa. Eu sei que a versão que sentou à mesa antes de você dizia o contrário. Mas escuta quem viveu cada dia desde então: criança não tem culpa do que um mais velho decide fazer. Nunca. Em nenhuma conta, em nenhuma versão, em nenhum mundo.

Você não era ameaça para ninguém.

Suas mãos não carregavam doença. Você podia abraçar a mãe. Podia segurar o copo inteiro, o corrimão sem manga, a saudade com as duas mãos. A mentira era deles. O medo é que foi seu — e olha só: mesmo com medo, você continuou amando todo mundo. De longe, mas continuou. Isso não é defeito. Isso é a prova de quem você era.

O que o seu corpo sentiu não foi escolha sua.

Corpo de criança não assina nada. Ele só reage — como olho lacrimeja no vento, como joelho pula quando o médico bate o martelinho. Reação não é consentimento. Não é participação. Não é culpa. Você vai carregar essa dúvida por muitos anos, então guarda esta frase para quando ela apertar: o corpo respondeu; você não escolheu nada.

Você podia ter contado. E merecia ser protegido.

Se o mundo tivesse funcionado, alguém teria acreditado em você na primeira frase. Teria trancado a porta certa, apontado o dedo na direção certa, segurado a sua mão. O mundo falhou. Os adultos falharam. A falha tem endereço, e o endereço não é você.

É isso, menino.

Você não precisa responder esta carta. Você já respondeu do único jeito que podia: sobrevivendo até eu poder escrevê-la.

Agora deixa comigo. Eu cuido do resto.

Do que sobrou de nós dois — você lembra? Eu prometi.

Um dia de cada vez.

Com amor,
você mesmo — não inteiro, mas de pé —
do outro lado.