O estranho pássaro
Existe uma crônica sobre mim na internet, escrita por quem viu a solidão antes de mim. Esta é a resposta ao estranho pássaro.
Existe uma crônica sobre mim na internet.
Está no ar até hoje, numa página que não é minha. Quem escreveu foi uma amiga de um antigo trabalho — uma escritora que, no meio do expediente, reparava nas pessoas. A gente ria das mesmas coisas, e isso é mais raro do que parece. Ela via a minha solidão sem saber ainda o nome dela. Eu também não sabia.
Na crônica, ela me descreve: calmo, discreto, calado. Uma doçura que não condizia com o tamanho. O colega que nunca aparecia nas rodas de cerveja, que se despedia às dezoito horas com um aperto de mão forte e um sorriso largo. “Ele parecia perfeito com a sua ‘cultura técnica’”, ela escreveu.
E encerra o retrato com uma confissão: “apesar de nossa amizade, pouco eu sabia sobre os detalhes de sua vida.”
Essa linha me desarma até hoje. Ela se cobra nela — e a cobrança não procede. Ninguém sabia dos detalhes; nem eu, que os guardava. Os detalhes moravam num cômodo que eu mesmo não abria. E o que dava para ver do lado de fora, ela viu como poucos: percebeu que o sorriso das dezoito horas era verdadeiro e, ao mesmo tempo, uniforme. Quem repara nisso não sabia pouco. Sabia o principal.
Falta um reparo, e faço com a ternura de quem atualiza um mapa antigo. A crônica termina numa manhã fria de julho, comigo apresentando um pedido de demissão e alegando, vagamente, “querer descansar”. A minha memória não encontra essa manhã — naquele tempo, ela não aconteceu. Licença poética: escritora que é escritora fecha a cena que a vida deixou aberta. E, no entanto, que pontaria. Levei anos para pedir, na vida real, a demissão que no texto dela eu já tinha tido a coragem de pedir. Quando pedi, o motivo era o que ela escreveu, palavra por palavra: descansar. Há escritores assim: erram os fatos com uma precisão que a memória não alcança. Ela não registrou a minha saída. Ela a previu.
A crônica fecha me chamando de “estranho pássaro”: o que ela não sabe por onde anda, o que a vida seduziu. Texto publicado é uma pergunta paciente — fica no ar o tempo que for preciso, esperando a resposta. Esta página é a resposta.
Por onde anda o pássaro: por aqui. Anda escrevendo. Pousou num ofício que examina sistemas por dentro — herdou processos, planilhas e códigos que ninguém queria abrir, e abriu. Um dia começou a abrir também os próprios cômodos, e fez deles estas páginas. Quando elas nasceram, eu avisei, do meu jeito discreto de sempre. Não sei se você viu. Se esta resposta te encontrar, você vai reconhecer tudo: a solidão que você viu antes de eu ter nome para ela, o sorriso largo das dezoito horas, a doçura e o tamanho — enfim na mesma página.
“Ele se foi antes que eu pudesse compreendê-lo”, você escreveu no fim. Ninguém poderia, naquela época — nem eu, que morava lá dentro. Você chegou mais perto do que imagina.
E crônica pode terminar com adeus; resposta não precisa.
Não inteiro, mas pousado.