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André Maia

Reflexões

O jardineiro e as sementes de inverno

Uma parábola sobre quem planta e rega sozinho enquanto todos admiram a sombra — e sobre a pergunta que ninguém fez ao jardineiro.

Havia um jardineiro que tinha um estranho hábito.

Enquanto todos discutiam qual seria a melhor estação para plantar, ele já estava com as mãos cobertas de terra.

Escolhia sementes com cuidado. Preparava o solo. Construía canais para a água. Erguia cercas para proteger os brotos antes mesmo que alguém acreditasse que eles nasceriam.

Os visitantes passavam pelo jardim e sorriam.

— Que belo planejamento.

Outros elogiavam as ferramentas.

— Nunca vi uma pá tão bem feita.

Alguns até fotografavam os canteiros vazios.

Mas poucos perguntavam onde estavam as árvores.

O jardineiro sorria, agradecia e voltava ao trabalho.

Com o tempo, descobriu uma coisa curiosa.

As pessoas gostavam muito da ideia das florestas. Gostavam dos desenhos, dos mapas, das promessas de sombra.

O problema começava quando era preciso regar todos os dias.

Então elas iam embora.

O jardineiro permanecia.

Plantava sozinho.

Carregava baldes sozinho.

Removia pedras sozinho.

E, quando finalmente aparecia uma árvore, reuniam-se todos ao seu redor para admirar a sombra.

Alguém dizia que o jardim era um sucesso coletivo.

Outro lembrava que sempre acreditou naquele lugar.

Um terceiro sugeria plantar ainda mais árvores.

Ninguém percebia que as mãos do jardineiro já não tinham a cor da pele.

Eram da cor da terra.

Certa tarde, ele deixou de plantar.

Não porque tivesse perdido o amor pelas árvores.

Mas porque descobriu que até as raízes precisam descansar antes de continuar empurrando o mundo para cima.

Na primavera seguinte, uma criança passou pelo jardim.

Olhou para as árvores.

Depois olhou para o homem sentado ao lado da pá.

E fez a única pergunta que ninguém havia feito em tantos anos.

— Quem cuidou de você enquanto você cuidava de tudo isso?

O vento respondeu antes que ele pudesse.

Com um silêncio tão profundo que parecia pedir desculpas.