O jardineiro e as sementes de inverno
Uma parábola sobre quem planta e rega sozinho enquanto todos admiram a sombra — e sobre a pergunta que ninguém fez ao jardineiro.
Havia um jardineiro que tinha um estranho hábito.
Enquanto todos discutiam qual seria a melhor estação para plantar, ele já estava com as mãos cobertas de terra.
Escolhia sementes com cuidado. Preparava o solo. Construía canais para a água. Erguia cercas para proteger os brotos antes mesmo que alguém acreditasse que eles nasceriam.
Os visitantes passavam pelo jardim e sorriam.
— Que belo planejamento.
Outros elogiavam as ferramentas.
— Nunca vi uma pá tão bem feita.
Alguns até fotografavam os canteiros vazios.
Mas poucos perguntavam onde estavam as árvores.
O jardineiro sorria, agradecia e voltava ao trabalho.
Com o tempo, descobriu uma coisa curiosa.
As pessoas gostavam muito da ideia das florestas. Gostavam dos desenhos, dos mapas, das promessas de sombra.
O problema começava quando era preciso regar todos os dias.
Então elas iam embora.
O jardineiro permanecia.
Plantava sozinho.
Carregava baldes sozinho.
Removia pedras sozinho.
E, quando finalmente aparecia uma árvore, reuniam-se todos ao seu redor para admirar a sombra.
Alguém dizia que o jardim era um sucesso coletivo.
Outro lembrava que sempre acreditou naquele lugar.
Um terceiro sugeria plantar ainda mais árvores.
Ninguém percebia que as mãos do jardineiro já não tinham a cor da pele.
Eram da cor da terra.
Certa tarde, ele deixou de plantar.
Não porque tivesse perdido o amor pelas árvores.
Mas porque descobriu que até as raízes precisam descansar antes de continuar empurrando o mundo para cima.
Na primavera seguinte, uma criança passou pelo jardim.
Olhou para as árvores.
Depois olhou para o homem sentado ao lado da pá.
E fez a única pergunta que ninguém havia feito em tantos anos.
— Quem cuidou de você enquanto você cuidava de tudo isso?
O vento respondeu antes que ele pudesse.
Com um silêncio tão profundo que parecia pedir desculpas.