Pular para o conteúdo
André Maia

Reflexões

O mar de São Sebastião

Aos dezessete, uma cidade que não escolhi veio com um oceano incluído. Sobre a imensidão que não faz perguntas — e a curiosidade que a névoa traduziu errado.

Eu não escolhi o mar.

Aos dezessete anos, mudar de cidade não é decisão — é notícia. A vida adulta resolve de portas fechadas e comunica de porta aberta: vamos. E fui, deixando para trás os poucos vínculos que eu tinha conseguido juntar. Quem tem poucos sabe: poucos é outro nome para todos.

Cheguei a uma cidade que eu não escolhi e que não me escolheu. Ela veio com um oceano incluído, como quem entrega uma casa e menciona o quintal por alto. Ninguém me avisou que o quintal seria a melhor parte.

Não escolhi ir. Mas o tempo, que não pede licença pra nada, fez ali, aos poucos, vínculos bons — de novo poucos, mas bons. Deixei esses vínculos pra trás outra vez quando voltei pra minha cidade, e ainda sinto falta de gente que não vou nomear aqui. Essa é uma conta que um dia acerto por escrito.

Para explicar o que o mar fez por mim, preciso voltar a um menino anterior à névoa. Pequeno, eu queria explorar tudo o que fosse grande demais para mim: o espaço, o fundo do mar — os dois, sem noção de escala, como se fossem bairros vizinhos. Minha pergunta de estimação era uma só: o que há lá fora? Eu fazia essa pergunta para o céu, para os livros, para qualquer adulto que parasse por tempo suficiente. Ela não pedia endereço novo. Pedia mapa.

Aí a névoa chegou — quem acompanha estas páginas sabe o ano, sabe o desenho. E a névoa tem um talento que levei décadas para nomear: ela não inventa nada. Traduz. Pega o que a gente tem de mais verdadeiro e verte para o idioma dela. A minha curiosidade era das coisas mais verdadeiras que eu tinha — então foi a que ela traduziu primeiro. “O que há lá fora?” virou “o que há do outro lado?”. O menino que queria explorar virou, na versão da névoa, um adolescente que queria sumir.

Já deixei registrado noutra página: eu não queria desaparecer. Hoje acrescento a linha que faltava — eu queria explorar. A névoa nunca soube a diferença. Eu levei anos para saber.

Foi nesse estado que o mar me recebeu. Eu descia até a Praia das Cigarras sem saber o que ia fazer lá, e descobri que a resposta era: nada. Sentava na mureta de pedra. Ficava ali, olhando a imensidão, ouvindo as ondas — só isso. O mar foi a primeira coisa que encontrei na vida com tamanho suficiente para caber o que eu carregava. Gente não tinha esse tamanho. Casa não tinha. Eu olhava a linha onde a água encosta no céu e alguma coisa em mim desapertava — como se, diante de algo tão grande, o que doía finalmente coubesse em algum lugar sem transbordar.

O céu, de noite, fazia o mesmo efeito. Nunca achei coincidência: céu e mar são parentes. Dois infinitos que aceitam visita.

E a imensidão tinha uma qualidade que na época eu não sabia chamar pelo nome: ela não perguntava nada. Não pedia explicação, não cobrava melhora, não estranhava meu silêncio. A gentileza já apareceu nestas páginas na forma de uma amiga que nunca forçou porta nenhuma. Em São Sebastião, ela teve a forma de um horizonte que não fazia perguntas — e que, por não fazer, deixava as minhas em paz.

Porque elas seguiam vivas, as perguntas. Debaixo da névoa, intactas. Eu olhava o horizonte e não pensava em atravessá-lo — pensava no que havia depois dele. São coisas diferentes. Essa diferença me segurou mais vezes do que eu saberia contar: o desejo de explorar nunca foi desejo de partir. Curiosidade, no original, é um plano de volta — quem quer saber o que há lá fora quer, no fundo, voltar para contar.

Aquele ano guarda outras histórias, mais difíceis, que ainda não sei escrever. Ficam para as páginas delas.

A que eu sei escrever é esta: o menino das perguntas sobreviveu. E não voltou de mãos vazias. Hoje eu atravesso outros oceanos — sistemas que ninguém mapeou, código antigo que ninguém quer abrir, processos de fundo que ninguém visitou. O ofício que escolhi é a pergunta de estimação com crachá: o que há aqui dentro? Eu mergulho, olho, volto para contar. A curiosidade atravessou a névoa inteira sem perder uma vírgula. E se ela atravessou, eu vim junto.

Foi o mar que me ensinou, antes de eu ter palavras para isso: imensidão não é ameaça. É canteiro — o maior de todos. As perguntas são as sementes.

De vez em quando eu volto. A mureta da Praia das Cigarras continua lá, e o mar também, fazendo o que os infinitos fazem: nada, majestosamente. Eu sento na mesma mureta. Olho. Escuto as ondas, o mesmo som de sempre. “O que há lá fora?” segue sem resposta completa.

Que bom. Enquanto a pergunta existir, existe alguém aqui dentro para fazê-la.

Não inteiro, mas à tona.