O menino que tinha medo das próprias mãos
Um conto sobre uma mentira plantada num menino de oito anos — e sobre o meio segundo que ela ainda cobra antes de cada abraço.
Era uma vez um menino que descobriu, aos oito anos, que era feito de veneno.
Não descobriu sozinho. Ninguém descobre uma coisa dessas sozinho.
Alguém mais velho contou. Com a voz de quem dá uma notícia e o sorriso de quem dá um presente.
Disse que o menino agora carregava uma doença. Que ela morava nas mãos dele. Que bastava um toque para a mãe adoecer, o pai adoecer, a casa inteira apagar como vela.
O menino não sabia o nome da doença direito. Mas sabia o nome das pessoas que amava.
E foi assim que ele aprendeu a dormir com as mãos escondidas debaixo do travesseiro.
A recusar abraço fingindo pressa.
A segurar o copo pela borda, o corrimão com a manga da blusa, a saudade com nada.
Ninguém percebeu. Adultos raramente percebem quando uma criança começa a amar de longe.
Achavam que ele era arredio. Esquisito. Desses meninos que não gostam de carinho.
Ninguém imaginou que era o contrário.
Que ele gostava tanto, tanto, que preferia ficar sem — a correr o risco de matar com as mãos aquilo que só queria segurar.
A mentira era mentira. O menino não carregava doença nenhuma.
Mas mentira contada para criança não precisa ser verdade para funcionar.
Precisa só de silêncio ao redor.
E silêncio era o que mais tinha.
Levei anos para descobrir a farsa. O corpo descobriu antes: ninguém adoeceu, ninguém apagou, a casa continuou de pé.
Mas as mãos demoraram mais.
Até hoje, às vezes, elas hesitam meio segundo antes de um abraço.
Meio segundo que ninguém nota.
Meio segundo onde ainda mora um menino de oito anos conferindo se é seguro.
Eu deixo. Ele confere. E então a gente abraça.
Porque foi isso que eu aprendi a fazer com aquela mentira:
não dá para apagá-la do arquivo.
Mas dá para abraçar mesmo assim.
Um abraço de cada vez.