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André Maia

Reflexões

O poema da contracapa

Aos catorze anos, copiei um poema gótico na contracapa do caderno. Meu pai disse que aquilo eu não escreveria. Vinte anos depois, a resposta — essa sim, minha.

Aos catorze anos, um poema
me escolheu num site gótico
— desses que a internet tinha
antes de aprender a cobrar.

Falava de um jardim de altos muros,
de flores mortas pelo chão,
e terminava confessando o endereço:
o jardim ficava dentro do coração.

Eu li e reconheci o quintal.

Copiei na contracapa do caderno,
à mão, com a letra que eu tinha,
e mostrava para as pessoas
como quem mostra um raio-x.

Meu pai viu. E disse
que aquilo eu não escreveria,
que eu devia ter pego da internet.

Tinha pegado.

Não discuti. Eu nunca disse
que o poema era meu.
Só nunca contei o resto:
que eu gostaria que fosse.
Que cada verso caía em mim
como chave em fechadura.
Ele achou que me pegou na mentira —
e me perdeu na verdade:
não perguntou por que o filho
carregava, na contracapa,
um jardim onde nada nascia.

O autor assinava Homem de Preto.
Uns anos depois, sem saber por quê,
me vesti de preto também.
(A moda, na minha rua,
chegava por dentro.)

Vinte anos se passaram.
O caderno se perdeu, o site morreu,
e fui procurar o poema
num arquivo que guarda as internets que se foram.
Achei. Intacto. Frio. Murado.
Ainda é bonito. Conferi.
Os jardins, quando são por dentro,
não sabem envelhecer sozinhos.

Obrigado, Homem de Preto,
onde quer que você ande.
O teu jardim me disse aos catorze
o que eu não sabia falar.
Demorei, mas entrei nele de dia.
Abri portão nos altos muros,
enterrei o que era para enterrar —
e hoje, nos canteiros,
tem coisa nascendo, quer ver?

Eu não escrevi o teu poema.
Mas a resposta, essa é minha.


Sobre o original. “Jardim das Almas Mortas” é de um autor que assinava Homem de Preto, publicado na galeria de poemas de visitantes do Spectrum Gothic — portal gótico brasileiro dos anos 2000. O site se foi; o poema sobrevive no Internet Archive, e vale a visita: o jardim continua lá. A estrofe final, a que me escolheu:

Onde encontrei tal jardim, tão cheio de desolação
A resposta causou me espanto, desespero, frustração
Percebi que o Jardim das Almas Mortas
Estava dentro de meu coração.