O velório que não houve
Um texto pessoal sobre uma morte sem atestado — e sobre marcar, vinte e seis anos depois, a lápide que faltava.
Toda morte tem direito a um velório.
Flores. Café ralo. Gente falando baixo. Alguém que segura a mão de alguém.
Mas existe um tipo de morte que acontece sem atestado.
Ninguém liga para a família. Ninguém escolhe a roupa. Ninguém acende vela.
A minha aconteceu num condomínio, entre um bloco e outro, num horário em que as mães chamavam os filhos para jantar.
Eu tinha sete anos.
Não morri por inteiro. Morreu só o menino.
O que fizeram com ele, eu demorei anos para ter nome. Na época chamavam de brincadeira. Brincadeira era a palavra que os mais velhos usavam para aquilo que criança nenhuma deveria conhecer.
O menino continuou andando depois disso. Foi à escola. Fez lição. Sorriu nas fotos.
É por isso que ninguém percebeu o falecimento.
Defunto que anda não levanta suspeita.
Enquanto os outros meninos discutiam carrinhos e figurinhas, eu já sabia coisas que eles não sabiam. Não era sabedoria. Era ferida com cara de segredo.
E quando o segredo tentou virar palavra, aprendeu que palavra também podia ser despejo.
Então voltou para dentro.
E ficou vinte e seis anos morando onde ninguém visita.
Só que luto sem velório não fecha.
Ele fica.
Vira peso atrás dos olhos. Vira cansaço que exame nenhum encontra. Vira um homem de trinta e três anos que funciona perfeitamente por fora e carrega, por dentro, um caixão que ninguém ajudou a segurar.
Hoje eu resolvi marcar a lápide.
Não por vingança. Não por pena.
Mas porque descobri que o menino não precisava de esquecimento.
Precisava de pêsames.
Então aqui estão, com vinte e seis anos de atraso:
meus sentimentos, menino.
Você não teve culpa de nada.
E eu ainda estou aqui, cuidando do que sobrou de nós dois.
Um dia de cada vez.