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André Maia

Reflexões

Para sair, abra aqui

Aos treze anos, duas aulas de desenho aconteciam na mesma sala — a do quadro tinha futuro, a do pulso não. Sobre o ano em que a névoa chegou, e o aviso que ninguém leu.

O professor de história não escrevia no quadro. Desenhava.

As caravelas portuguesas atravessavam o quadro com detalhe de estaleiro — casco, velame, cordame, como se ele tivesse navegado numa delas. O feudalismo, que nas outras salas era lista para decorar, na nossa era um castelo medieval subindo pedra por pedra, era a roda d’água girando na beira do rio para mover o moinho. Eu sei feudalismo até hoje — e sei porque prestava atenção nele desenhando, achando incrível que tudo aquilo coubesse num giz. O Prof. Okita acreditava numa coisa que nunca disse em voz alta, mas provava todo dia no quadro: que existe coisa que a palavra não carrega. Que desenho também é jeito de dizer.

Eu tinha treze anos. E naquele ano, eu também desenhava.

Não no caderno. No pulso. Uma linha pontilhada, de caneta vermelha, no lugar exato onde as embalagens escrevem “abra aqui”.

Eu não saberia explicar o que estava acontecendo comigo — treze anos não sabe. Hoje sei. Quem lê estes textos já encontrou a névoa mais velha, espessa, falando com a minha voz. Pois se a névoa tem certidão de nascimento, a data é essa: o ano da aula de história. Ela não veio do nada — névoa nenhuma vem. Sobe de um chão que ficou encharcado muito antes, aos seis, aos oito. Mas foi aos treze que ela cobriu a vista pela primeira vez.

Havia, portanto, duas aulas de desenho acontecendo na mesma sala. A do quadro explicava o passado para abrir futuro: a prova no fim do mês, o colégio no ano seguinte, uma vida depois. A do pulso não tinha futuro nenhum. Era exatamente sobre isso.

E aqui está a parte que levei vinte anos para conseguir dizer: ninguém leu o desenho. Numa sala treinada o ano inteiro para ler caravelas, muralhas e rodas d’água, o único desenho que pedia leitura urgente passou em branco. Talvez tenham visto e achado coisa de menino — caneta na pele, distração de aula. Talvez não tenham visto. Até hoje não sei qual das duas dói menos.

Porque quem desenha aviso quer ser lido. Aos treze anos, a dor não tinha vocabulário — tinha uma caneta vermelha e um pulso, e escreveu com o que tinha. A linha pontilhada não era um plano; era uma carta: dizia por onde eu achava que se saía. Eu não queria desaparecer. Eu queria ser achado.

Não fui achado a tempo. E aviso que ninguém lê não desiste — insiste, e com os anos muda de tinta. O braço guarda esse arquivo por inteiro; ele não cabe nesta página, pertence a textos que ainda vou escrever. Aqui fica só a certidão: tudo o que veio depois nasceu no ano em que ninguém leu.

O aviso acabou lido. Com vinte anos de atraso — o correio entre quem fomos e quem somos é lento, eu já disse uma vez — mas lido: aqui, por você, e antes de você por mim. E foi lendo que eu entendi o que o menino de treze anos acertou e o que ele errou. A instrução estava certa. Para sair, era mesmo preciso abrir. Só que não onde a linha dizia. Abrir a boca. Abrir a história. Abrir a porta certa — a do consultório, a da página.

Foi o que eu fiz. Abri aqui.

E foi assim que saí — não inteiro, mas de pé, com a caneta ainda na mão. De outra cor.