Do outro lado do vidro
Uma crônica sobre a tarde em que a tese me cobrou em pessoa — todos os requisitos cumpridos, todos os indicadores verdes, e um homem saiu da fila sem o que veio buscar.
Era para ser um dia de folga.
Daqueles que a gente marca para cuidar de si.
A manhã decidiu diferente: minha mãe entrou em crise, e a folga virou hospital. No meio da crise, uma das brigas foi sobre o remédio controlado — o tratamento ela não aceita; o remédio, não larga.
Almocei. Saí de novo, no modo que eu conheço bem: provedor em serviço, sorriso no rosto, foco nos objetivos.
Primeira parada, a UBS. Buscar os remédios que a UPA receitou para ela — e aproveitar para tentar o acolhimento. Para mim.
“Só depois de uma hora e quarenta. Talvez. E se o senhor sair, corre o risco de outra pessoa pegar a vaga.”
Eu tinha uma mãe esperando remédio. Saí.
Farmácia um: o remédio dela não tinha.
Farmácia dois: cobraram a receita que eu não tinha — e avisaram que o remédio também não tinham.
Passei na igreja. Terceira tentativa de marcar a direção espiritual. Terceira negativa: a agenda ainda não abriu.
Tomei chuva. Pulei de ônibus em ônibus.
Quinze e quarenta, de volta à UBS. Tinham me dito que as vagas abriam de vinte em vinte minutos.
Vagas de vinte em vinte minutos. Saúde dispensada em fatias de agenda.
Peguei a senha.
Escrevi uma vez que a burocracia é uma fila onde até as lágrimas precisam aguardar a própria senha. Era metáfora. Hoje ela saiu impressa, com número e tudo.
O recepcionista me reconheceu. E fez a cara de quem sofreu um gol contra.
Foi falar com a enfermeira. Voltou balançando a cabeça: os atendimentos atrasados, e mais um significava segurar a unidade até as sete da noite de uma sexta-feira de véspera de feriado.
Eu entendo. Juro que entendo. Ela também é uma pessoa dentro de um sistema que fatia gente em vinte minutos.
Sorri. Agradeci imensamente. Desejei bom fim de semana e bom feriado.
Tudo bem. Afinal, quem se importa com a saúde mental dos homens?
Há três dias escrevi que requisito é o que foi pedido e problema é o que dói. Hoje a tese me cobrou em pessoa, e eu preciso registrar a cobrança:
Nenhum requisito falhou comigo hoje.
A senha saiu na hora. As vagas abriram de vinte em vinte minutos, como prometido. A enfermeira protegeu a jornada que a lei manda proteger. O recepcionista foi humano até onde o processo deixou.
Todos os indicadores verdes.
E um homem saiu da fila sem o que veio buscar.
O único campo do formulário onde a minha dor coube foi o rosto do recepcionista.
No caminho de volta, debaixo de chuva, percebi a parte da tese que eu ainda não tinha escrito.
Eu também sou um sistema com todos os indicadores verdes.
O sorriso solta a senha na entrada. O foco chama os objetivos em ordem. O relatório do dia fecha impecável: mãe medicada, remédios buscados, tarefas cumpridas, nenhuma pendência visível.
Chamam isso de depressão funcional. Eu chamo de atender ao processo e falhar na pessoa.
Porque dentro desse sistema tem um homem sentado na sala de espera. Ele pegou a senha faz tempo.
O painel nunca chama.
Uma canção alemã diz que o tubarão chora na água — assim ninguém vê as lágrimas.
Já tinha tomado chuva mesmo: a cidade me molhou por fora antes que eu me desse licença por dentro. O choro, deixei para o banho.
Terça-feira, talvez, eu volte à UBS. Talvez não.
A fila anda.
Terminei aquele texto perguntando se, do outro lado do vidro, alguém ainda escuta.
Hoje aprendi que há dias em que o vidro é a gente.