Os canteiros que espalharam sementes
Uma parábola sobre canteiros pequenos e sementes de inverno — e sobre a frase que é o centro de tudo, nenhum canteiro inventa semente.
Numa vila antiga, havia um quintal onde ficavam os canteiros pequenos.
Canteiros novos, de terra ainda macia, dessa que aceita qualquer semente sem saber dizer não.
Um dia passou pela vila um homem com sementes escondidas no bolso.
Sementes de inverno. Daquelas que nenhum canteiro pequeno deveria conhecer — porque terra nova é feita para flor de estação, não para raiz que gela.
O homem plantou onde não devia. Cobriu com terra. Foi embora antes da colheita, como fazem todos os que plantam o que têm vergonha de colher.
E aqui a parábola conta o que quase ninguém conta.
Semente espalha.
É a natureza dela. Vento leva, pássaro carrega, um canteiro encosta no outro e a raiz atravessa. Os canteiros pequenos espalharam entre si a semente que um adulto plantou — sem saber o nome dela, sem saber o gelo dela, sabendo só que agora aquilo crescia em sua terra e precisava ir para algum lugar.
Nenhum canteiro inventou a semente.
Guardem esta frase, porque ela é o centro de tudo: nenhum canteiro inventa semente. Toda semente tem uma primeira mão. E a primeira mão nunca é de criança.
Os canteiros cresceram. Viraram jardins.
E um dia, já grandes, se olharam e reconheceram, uns nos outros, a mesma planta estranha de inverno. E cada jardim sentiu vergonha, achando que ela tinha nascido de si. Cada um se julgou o inventor daquilo que apenas recebeu.
Alguns jardins se fecharam para visita.
Outros arrancaram flores boas junto com o mato, sem saber separar.
Outros passaram a vida inteira pedindo desculpa à vila — a vila que nunca perguntou de onde vinham as sementes, mas achou fácil culpar a terra.
Se algum desses jardins estiver lendo:
a culpa tem dono, e o dono tem nome, e o nome não é o seu.
Você era canteiro pequeno. Terra macia. Você espalhou o que plantaram em você porque semente espalha — não porque você era mau. Maldade exige escolha, e canteiro pequeno não escolhe o que recebe.
O jardineiro de verdade — aquele das sementes de inverno, o que rega sozinho — me ensinou o final desta história:
planta de inverno se arranca no tempo dela. Uma raiz de cada vez. E no buraco que fica, cabe semente nova. Dessa vez, escolhida.
Eu sei porque o meu jardim ainda tem canto gelado.
Mas tem também canteiro novo, terra que eu mesmo virei, flor que eu mesmo escolhi.
E visita, o jardim recebe de novo.
Devagar. Com portão. Mas recebe.