O moletom preto
O guarda-roupa de uma cor só e a música que gritava por mim — sobre vestir por fora o luto que não podia ser dito por dentro.
Era pleno verão. Eu vestia um moletom preto.
Não era estilo. Estilo escolhe; eu obedecia.
Preto na escola, preto no domingo, preto no calor de rachar. O guarda-roupa de uma cor só, como se alguém tivesse morrido.
As pessoas perguntavam do calor. “Você não está cozinhando aí dentro?” Perguntavam da moda, da fase, da rebeldia. Perguntaram tudo o que dava para perguntar sem chegar perto.
Do calor eu me defendia com um dar de ombros. Da pergunta certa nunca precisei me defender: ninguém a fez.
Porque a resposta estava à vista, vestida da cabeça aos pés. Era luto.
Luto de verdade — com a única diferença de que o morto não tinha atestado. Escrevi uma vez sobre o velório que não houve: uma morte de criança que nenhum documento registrou. Pois o moletom era isso. Eu comparecendo, anos depois, a um velório que eu não sabia nomear. Vestindo preto por um morto que ninguém enterrou. Nem eu sabia direito por quem estava de luto — só sabia que tirar o preto parecia traição.
Quem não pode dizer, veste. A roupa era o único idioma que passava pela alfândega dos adultos: ninguém proíbe um menino de gostar de preto. Eu me vestia por fora do jeito exato que não podia falar por dentro. Uniforme de um funeral sem data para acabar.
Havia também a segunda serventia, a que eu não contava nem a mim: a manga. O aviso que ninguém leu tinha mudado de tinta, e manga comprida no verão era o jeito de o arquivo continuar só meu. Ele segue não cabendo nesta página. Fica só o registro: o luto não era a única coisa que o preto cobria.
E havia a música.
Pesada, gritada, cheia de guitarra — dessas que os adultos olham torto e diagnosticam raiva. Comigo, fazia o contrário do diagnóstico: me alegrava. Eu apertava o play e sentia uma coisa parecida com alívio. Quase com festa.
Levei anos para entender essa matemática às avessas. Canção triste não entristece quem já está triste — acompanha. Música de raiva não ensina raiva a quem já engoliu tanta — empresta a voz.
Dentro dos fones, pela primeira vez, alguém dizia a dor em voz alta. Sem pedir licença, sem baixar o tom, sem medo do teto. Tudo o que em mim era proibido sussurrar, ali era refrão. Eu não ouvia barulho. Ouvia alguém concordando.
Muito antes de eu descobrir que o silêncio também faz barulho, o barulho já fazia companhia ao meu silêncio.
O luto não acabou num dia marcado. Foi acabando à medida que ganhou palavras — primeiro emprestadas, aos gritos, dentro do fone; depois minhas, em silêncio, em páginas como esta. O morto ganhou lápide, o velório ganhou registro, e a dor, que só sabia se vestir, aprendeu a escrever.
Ainda gosto de preto. Visto até hoje.
A diferença é que hoje é escolha — não uniforme.
E quando a música pesada toca, eu ainda aumento. Não porque eu precise que alguém grite por mim. Em memória dos anos em que precisei — e em gratidão a quem gritou.